domingo, 29 de outubro de 2023

1978 - Lois

Naquela época eu tinha em torno de seis ou sete anos de idade. Meu irmão mais velho, dezoito anos mais.

Eu adorava brincar de jogar bola. Fazia partidas históricas e emocionantes. Colecionava então, um álbum de figurinhas com os vinte times de futebol do campeonato paulista de 1978. Haviam craques inesquecíveis: Dr. Sócrates e Biro-Biro pelo Corinthians, Valdir Peres e Dario Pereira pelo São Paulo, Enéas e Daniel Gonzáles pela Portuguesa de Desportos, os meninos da Vila, campeões daquele ano e até a Associação Atlética Francana caçula da, então, Divisão Especial.



Eu "perdia" horas naquele bate bola, sozinho, sem nenhum amigo, não porque me faltava, mas porque aquele momento era só meu, eu e minha inesgotável imaginação futebolística.

Sonhava em ser um daqueles incríveis heróis uniformizados: ludibriar o astuto adversário com meus dribles mágicos, disparar bombas poderosíssimas contra o maldoso goleiro inimigo e depois de jogadas inexplicáveis, de outro mundo, marcar gols fantásticos e ouvir os gritos alucinados da maior torcida do planeta dentro do mais moderno e luxuoso estádio de futebol ali no quintal da minha casa.

Além dos conhecidos jogadores e suas tradicionais equipes expostos ali no meu já surrado álbum (esquecia-o muitas vezes ali no quintal, no tempo, sujeito a todo tipo de sorte:6 chuva, sol, poeira, principalmente quando as partidas eram interrompidas por motivo de força maior, como, por exemplo, minha mãe chamando pra tomar banho, e retomadas no dia seguinte ou a gosto da Federação Paulista de Futebol de Quintal), desfilavam naqueles "gramados" ilustres desconhecidos que surgiam da minha cabeça de moleque.

Tinha por exemplo o time do Infanto's Futebol Clube, no qual jogavam só garotos em idade adolescente e onde se destacava um trio de irmãos que era a espinha dorsal da equipe. O goleiro, irmão mais velho o mais sério dos três, o meia-armador, obviamente o irmão do meio, mais criativo e mais inteligente e por fim o caçula da família, atacante e o mais irreverente.

A criatividade não parava por aí. Nesse meu imenso espaço poli - esportivo também havia sensacionais partidas de basquete, vôlei, futsal e até beisebol. Tudo em nome da diversão e da paixão pelo esporte.

Num dia, durante uma dessas espetaculares partidas, apareceu por lá meu irmão mais velho, citado aqui no começo da história. A princípio não estranhei, pois eu estava acostumado a ser assistido por grandes celebridades ali ao vivo, inclusive meus irmãos.

Só que nesse dia ele estava diferente. Pareceu-me um pouco triste, distante, sem nem sequer vibrar com uma fantástica jogada de linha de fundo proporcionada pelo camisa sete da Feiticeira, Antenor.

Interrompi momentaneamente o jogo e fui conversar com ele. "Que foi mano, cê tá triste?" Mas ele não me respondeu e continuou ali, absorto com o pensamento longe. Meu irmão sempre foi espontâneo, dinâmico, comunicativo. Nas raras vezes que estava em casa no mesmo horário que eu e ambos acordados, ficava me olhando, cuidando mesmo de mim, típico de irmão mais velho que assume o papel de pai, quando o pai não está por perto.

Só que naquele dia não estava normal. Alguma coisa o incomodava. Problemas financeiros talvez, ou alguma paixão mal resolvida, sei lá.

Procurei saber com o quarto árbitro, com os bandeirinhas, com outros torcedores. Nada. Procurei explicação com os comentaristas da imprensa ali presente, porém ninguém sabia de nada. Acho que nunca vou saber o porquê daquilo naquele dia. Talvez faltasse a ele um estádio de futebol como o meu, participar de partidas inesquecíveis como eu, ou simplesmente ser gênios da bola como eu fui.  

Lois

2 comentários:

  1. Adorei essa história, amo o esporte, e nela consegui relembrar momentos inesquecíveis da minha infância.

    ResponderExcluir
  2. Esse desfecho é sensacional!

    ResponderExcluir