Rubem Fonseca
A história de 26 capítulos conta sobre os primeiros 26 dias do mês de agosto de 1954 na, então capital do país, cidade do Rio de Janeiro, onde acontece, a princípio, dois crimes, um fictício, a morte de um grande empresário, Paulo Gomes Aguiar, envolvido com muitas falcatruas, e outro verdadeiro, a morte do major da aeronáutica que, na noite do dia 5, acompanhava Carlos Lacerda, o maior adversário político do presidente Getúlio Vargas.
Na realidade o alvo do assassino era Lacerda, mas quem levou a pior foi o Major Vaz. O delegado Alberto Matos, encarregado do primeiro crime, acredita que esse tem ligação com o segundo e tenta desvendar o mistério. Ele é um profissional, como diríamos? Um profissional fora da curva. Às voltas com uma úlcera, passa o livro todo mastigando/chupando anti-ácido e bebendo leite para refrescar suas terríveis dores, é apaixonado por ópera e, principalmente, é um cara incorruptível.
Enquanto seus pares estão todos comendo nas mãos dos bicheiros da época, ele não se deixa intimidar e até dá o pé na bunda de um tal de Ilídio, bicheiro em ascensão e, por conta disso, acabou arrumando pra cabeça.
Pra cabeça mesmo ele já tinha arrumado, pois namorava Salete que era amante de um deputado, Luiz Magalhães, mas eis que surge na parada sua ex-namorada, Alice, que é casada com Lomagno que, por sua vez, é amante de Luciana Gomes Aguiar, viúva do empresário assassinado. Que rolo!
Paralelamente corre o calvário de Getúlio que se sente cada vez mais pressionado por seus opositores acusando-o das mais diversas atrocidades ocorridas no país, inclusive de ter sido mandante do atentado ao jornalista Carlos Lacerda e que culminou na morte do major da aeronáutica. Tudo isso levou-o ao suicídio naquele fatídico 24 de agosto.
A narrativa apresenta muitos outros personagens fictícios ou não que nos prendem do começo ao fim da história fazendo-nos viajar por uma época fascinante, os anos 50. Uma Rio de Janeiro cheia de peculiaridades, lugares fictícios ou não, nunca sabemos, modelos de carros que fizeram história, enfim, incrível romance policial ou perfeito romance histórico, que nos faz voltar aos anos dourados e depararmo-nos com uma podridão que, se comparada com a de hoje, não passa de um "peidinho de véio".
"Deitado na cama, com os olhos abertos sem ver, Vargas imaginou como sua morte seria recebida pelos seus inimigos... Faria o que tinha que ser feito. Desafronta e redenção. Uma sensação eufórica de orgulho e dignidade tomou conta dele. Sim, sua filha agora o perdoaria.
Apanhou o revólver na gaveta da cômoda e deitou-se na cama. Encostou o cano do revólver no lado esquerdo do peito e apertou o gatilho." Rubem Fonseca.
Abraços e até a próxima,
Lois
