José Saramago
Em tempos de total desilusão com a política nacional, esta obra de Saramago vem de encontro à uma enorme vontade de grande maioria da população brasileira.
De forma extraordinariamente espontânea e natural os leitores de uma cidade fictícia - mas poderia ser verdadeira - resolvem pregar uma grande peça nos seus candidatos, e então, gerar um enorme problema nacional que leva a cidade a ser isolada do resto do país como uma forma de castigo.
Começa aí uma esmiuçada busca pelo motivo ou uma eventual explicação pelo ocorrido na tal cidade. Reuniões intermináveis, espionagem e desconfianças. Todo e qualquer acontecimento naquele lugar era alvo dos espiões que levavam tudo aos ministros que por sua vez tentavam entender a motivação e a finalidade da atitude anti-democrática dos moradores daquele município que deixou boquiaberto o restante do país.
Saramago, com a sua forma peculiar, escreve esta obra com poucos parágrafos e utilizando somente vírgulas e pontos finais, deixando o leitor, às vezes, sem fôlego, fazendo uma leitura desenfreada. Nada de travessões para as falas das personagens, nem pontos de exclamação para as interjeições, mas nem por isso, deixamos de perceber a ironia, o sarcasmo, o exagero com que o autor trata o tema.
Essa obra nos leva a refletir sobre o nosso papel na sociedade, o que podemos efetivamente fazer como cidadãos diante de tantas mazelas políticas. Ficar esperando que nossos eleitos cuidem de tudo por nós como se tivéssemos passado a eles uma procuração e delegássemos-lhes toda responsabilidade do país e, pior ainda, votarmos e colocarmos o resto nas mãos de Deus, movidos pela fé mas também pela preguiça, pela covardia, pela indiferença, etc, etc, etc...
Não, não podemos nos abster, até mesmo porque "o diabo tem tão bom ouvido que não precisa que digam as coisas em voz alta, Valha-nos então deus, Não vale a pena, esse é surdo de nascença." - José Saramago.
Abraços,
Lois
