segunda-feira, 6 de novembro de 2023

O Craque


 Existem vários tipos de jogadores que se destacam dentro de uma partida de futebol:

Tem aquele meia esquerda que tem uma tremenda habilidade com a canhota e é capaz dar dribles desconcertantes e improváveis.

Tem aquele meia direita que se dá o direito de arriscar lançamentos altamente precisos e milimétricos.

Tem aquele ponta agudo, ligeiro, que leva a bola até a linha de fundo, dá um drible seco no seu marcador e alça na área bem na cabeça do atacante.

Tem o volante moderno que gruda no adversário como um carrapato, mas quando seu time está de posse da bola surge de onde menos se espera e surpreende a todos com rapidez e excelente toque de bola.

Há também, laterais que, promovidos à condição de alas, são extremamente ofensivos sem perder o profundo senso de marcação.

Há, ainda, goleiros que, além de milagrosas defesas, aventuram-se a bater faltas, pênaltis e, eventualmente, quando no desespero, vão salvar suas equipes de alguma derrota com gols de cabeça.

Ah...até já ia me esquecendo dos centroavantes goleadores, aqueles que, como ninguém, são profundos conhecedores da arte de fazer gols, são malandros, perspicazes e dentro da área são insuperáveis.

Porém, todavia, existe aquele que reúne, se não todas, pelo menos a maioria das qualidades citadas anteriormente e um algo mais.

O cara que quando pega na bola a torcida se agita, sabe que dali alguma coisa vai sair. 

Aquele que domina no peito com leveza e põe a bola no chão sem, se quer, olhar pra ela, total desprezo àquela que tanto preza. Com a cabeça erguida olha, vê a frente e atrás e até consegue antever o que está por vir – Vê se pode!

Quando necessário, mas somente quando necessário, usa de outros apetrechos nada convencionais ao seu ofício, como caneta, chapéu, elástico... e tem o centro de equilíbrio imbatível e, por mais que tentem seus marcadores, não conseguem de forma alguma levá-lo ao chão.

Tem absoluta convicção do que pode e o que deve fazer, total domínio do meio que o cerca e uma profunda capacidade de se superar cada vez mais. 

Sabe exatamente onde estão e onde estarão seus companheiros e também os adversários.

Esse é o craque: soberano, altivo, diferenciado...Sobretudo, "sobre todos".

Lois

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

História do Pranto - Alan Pauls

 


Algumas vezes na vida a gente se depara com situações que nos remetem ao passado: fatos que há muito estão guardados lá no fundo da memória e emergem repentinamente por conta de um acontecimento atual que provoca em nós lembranças às vezes boas e às vezes más.

Sem contar aquele sentimento de "déjà vu" que é aquela sensação de já ter estado em determinado lugar sem nunca ter estado, aquela certeza absoluta de já ter passado por alguma situação, mas ninguém mais se lembrar daquilo.

O argentino Alan Pauls relata acontecimentos mais ou menos assim nesta sua narrativa - uma novela de pouco menos de 100 páginas - que conta a história de um menino que, ora com quatro anos, ora já adolescente, vestido com sua roupa de super-homem e montado em seu triciclo tenta entender o mundo ao seu redor.

Passando por um cenário político argentino da década de setenta, dois personagens destacam-se na vida do protagonista, curiosamente, causando-lhe náuseas.

O primeiro ligado a sua mãe, um vizinho militar do prédio onde moravam e com quem, algumas vezes, sua mãe o deixava para fazer trabalhos vespertinos. O sujeito aceitava cuidar dele na ausência da mãe, porém, não era lá muito amistoso, limitando-se a sentar na sua poltrona e apenas observar o garoto de longe, às vezes lendo um livro ou, às vezes, fumando um cigarro e até dormindo.

A primeira vez que viu esse tal vizinho foi no elevador e aí se dá a cena na qual o protagonista teve náusea causada pelo perfume do militar, um cena, até certo ponto, digamos, interessante.

O outro personagem que causa náusea em nosso herói é um cantor de protesto que é ligado a seu pai e tudo nele, aos olhos do protagonista, soa falso ao ponto de lhe causar náuseas.

A história, então, desenrola-se através da memória do personagem principal, um novelo de lã que vai se desenrolando e enrolando  a gente.

Confunde-nos às vezes, o vai e vem dessas memórias, exigindo um pouco mais de atenção, porém, no final, um desfecho inusitado coloca tudo às claras, ou quase tudo.

Lois