Naquela época eu tinha em torno de seis ou sete anos de idade. Meu irmão mais velho, dezoito anos mais.
Eu adorava brincar de jogar bola. Fazia partidas históricas e emocionantes. Colecionava então, um álbum de figurinhas com os vinte times de futebol do campeonato paulista de 1978. Haviam craques inesquecíveis: Dr. Sócrates e Biro-Biro pelo Corinthians, Valdir Peres e Dario Pereira pelo São Paulo, Enéas e Daniel Gonzáles pela Portuguesa de Desportos, os meninos da Vila, campeões daquele ano e até a Associação Atlética Francana caçula da, então, Divisão Especial.
Eu
"perdia" horas naquele bate bola, sozinho, sem nenhum amigo, não
porque me faltava, mas porque aquele momento era só meu, eu e minha inesgotável
imaginação futebolística.
Sonhava
em ser um daqueles incríveis heróis uniformizados: ludibriar o astuto
adversário com meus dribles mágicos, disparar bombas poderosíssimas contra o
maldoso goleiro inimigo e depois de jogadas inexplicáveis, de outro mundo,
marcar gols fantásticos e ouvir os gritos alucinados da maior torcida do
planeta dentro do mais moderno e luxuoso estádio de futebol ali no quintal da minha casa.
Além dos
conhecidos jogadores e suas tradicionais equipes expostos ali no meu já surrado
álbum (esquecia-o muitas vezes ali no quintal, no tempo, sujeito a todo tipo de
sorte:6 chuva, sol, poeira, principalmente quando as partidas eram interrompidas
por motivo de força maior, como, por exemplo, minha mãe chamando pra tomar banho, e
retomadas no dia seguinte ou a gosto da Federação Paulista de Futebol de
Quintal), desfilavam naqueles "gramados" ilustres desconhecidos que
surgiam da minha cabeça de moleque.
Tinha por
exemplo o time do Infanto's Futebol Clube, no qual jogavam só garotos em idade
adolescente e onde se destacava um trio de irmãos que era a espinha dorsal da
equipe. O goleiro, irmão mais velho o mais sério dos três, o meia-armador,
obviamente o irmão do meio, mais criativo e mais inteligente e por fim o caçula
da família, atacante e o mais irreverente.
A
criatividade não parava por aí. Nesse meu imenso espaço poli - esportivo também
havia sensacionais partidas de basquete, vôlei, futsal e até beisebol. Tudo em
nome da diversão e da paixão pelo esporte.
Num dia,
durante uma dessas espetaculares partidas, apareceu por lá meu irmão mais
velho, citado aqui no começo da história. A princípio não estranhei, pois eu
estava acostumado a ser assistido por grandes celebridades ali ao vivo,
inclusive meus irmãos.
Interrompi
momentaneamente o jogo e fui conversar com ele. "Que foi mano, cê tá
triste?" Mas ele não me respondeu e continuou ali, absorto com o
pensamento longe. Meu irmão sempre foi espontâneo, dinâmico, comunicativo. Nas
raras vezes que estava em casa no mesmo horário que eu e ambos acordados,
ficava me olhando, cuidando mesmo de mim, típico de irmão mais velho que assume
o papel de pai, quando o pai não está por perto.
Só que
naquele dia não estava normal. Alguma coisa o incomodava. Problemas financeiros
talvez, ou alguma paixão mal resolvida, sei lá.
Procurei saber com o quarto árbitro, com os bandeirinhas, com outros torcedores. Nada. Procurei explicação com os comentaristas da imprensa ali presente, porém ninguém sabia de nada. Acho que nunca vou saber o porquê daquilo naquele dia. Talvez faltasse a ele um estádio de futebol como o meu, participar de partidas inesquecíveis como eu, ou simplesmente ser gênios da bola como eu fui.
Lois
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