Milan Kundera
Uma obra com um fim filosófico, que lança um questionamento sobre qual é o peso correto a ser dado a tudo que nos diz respeito: nosso trabalho, nossa família, nossos relacionamentos (amorosos ou não), nosso envolvimento com a política e até nosso comportamento frente aos animais.
Thomas, personagem principal, separado da primeira esposa com quem teve um filho, vive uma vida bem "leve", médico bem de vida, mulherengo, só leva a sério o próprio trabalho. Logo no início da trama diz que se livrou, numa só tacada, do pai, da mãe, da esposa e do filho, o pacote inteiro, adquirindo, assim, uma vida de total liberdade, descompromissada e extremamente "leve". Até que aparece Tereza, garçonete de um bar do interior da Tchecoslováquia. Esse bar, na sua maioria, é frequentado por bêbados, mas Tereza acaba se interessando por um cara sozinho numa mesa em um determinado dia lendo um livro: Thomaz.
Depois da troca de olhares, palavras e bilhetes, ele volta para Praga, capital tcheca, onde, depois de alguns dias, aparece Tereza de "mala e cuia", alegando estar na cidade por motivos profissionais ou, como depois viria confessar, a procura de trabalho.
Thomaz acaba, então, apaixonando-se de verdade por ela, levando-a para morar com ele, mas não consegue deixar sua vida de mulherengo. Consegue um emprego para Tereza com uma de suas amantes, Sabina, que é a outra personagem de vida "leve" da história.
Sabina é uma artista, tem em mente que foi educada sob o signo da traição, que nada na vida merece fidelidade, tudo é passivo de traição e, portanto, sua vida é um constante experimentar.
A certa altura, Sabina conhece Franz, professor universitário, casado, uma filha, extremamente "caxias", que sempre levou a vida sob a batuta do politicamente correto, porém, com muita sede de transgredir, uma tremenda vontade de voltar-se contra o sistema. Acreditava que em seu país (acho que Suécia) tudo era muito superficial, sem profundidade - "num país rico os homens não têm necessidade de trabalhar com as mãos e se dedicam a uma atividade intelectual... a cultura desaparece numa multidão de produções, numa avalanche de frases, na demência da quantidade."
Milan Kundera desenrola sua trama sempre tendo como pano de fundo o domínio russo sobre esse país recém saído da Segunda Guerra e muito fragilizado, a Tchecoslováquia.
Por conta de uma declaração ingênua a uma revista, sem nenhuma intenção política, Thomaz é perseguindo e obrigado a deixar a medicina e ir morar no interior do país.
Enquanto isso Franz separa-se da esposa acreditando que vai poder, então, ter um relacionamento "correto" com Sabina, mais "leve", sem traição, assumir um relacionamento mais verdadeiro, mas, ela não quer saber dessa "leveza" ou desse "peso" e vai embora abandonando Franz.
O autor cita Nietzsche, Kafka, Tolstói, Parmênides, deixando-nos clara a intensão filosófica da obra.
E a pergunta que acompanha todo o livro e, com certeza, vai nos acompanhar depois de terminada a sua leitura, é qual o peso que devemos dar aos nossos relacionamentos, ou melhor ainda, existe um peso que se possa aferir nossos relacionamentos, sejam eles amorosos, políticos, familiares, entre outros?
Parmênides responderia: "o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ou não teria razão? A questão é essa. Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e mais ambígua de todas as contradições."
Um abraço,
Lois
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