terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Amor de Perdição

Camilo Castelo Branco

O autor conta a história de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, dois jovens que se apaixonam perdidamente depois de descobrirem-se vizinhos, porém com pais que se odiavam.
Esta é uma novela narrada em terceira pessoa pelo sobrinho do personagem principal. Uma obra profundamente romântica com todas as características e chamada por muitos de "Romeu e Julieta lusitano".
Simão vive na cidade do Porto com o irmão mais velho, ambos estudantes. Vive metendo-se em confusões e, por conta disso, naquele ano é enviado mais cedo para sua cidade natal, Viseu, numa espécie de férias antecipadas.
Nesse período descobre que seus pais têm na vizinhança uma linda moça de nome Teresa por quem se apaixona e é deveras correspondido.
Porém, os pais dos jovens se odeiam por pendengas passadas e logo que ficam sabendo do flerte dos filhos, fazem de tudo para desestimulá-los. O pai de Teresa, Tadeu Albuquerque, então, chama à trama Baltasar Coutinho, um sobrinho seu a quem propõe casamento com a bela (e rica) filha. O fidalgo aceita prontamente e prontifica-se a fazer a prima esquecer o vizinho brigão.
Mas, Teresa não aceita a imposição do pai, muito menos o amor do primo, então, o pai contrariado, resolve enviá-la para um convento, onde viveria até o resto dos seus dias.
Simão, a essa altura em Coimbra, fica sabendo da agonia de sua amada e resolve, mais uma vez, retornar a Viseu e  interceder por Teresa. Para evitar suspeitas, com ajuda de um amigo, aloja-se na casa de um ferreiro que, segundo o amigo, é de total confiança: João da Cruz, o ferreiro, tem uma filha chamada Mariana que se apaixona por Simão e trata-o com total zelo.
João da Cruz tem um dívida de gratidão com o pai de Simão e por isso trata-o também como a filha, com excepcional carinho. Acompanha-o nos encontros fortuitos com Teresa, livra-o dos capangas de Baltasar Coutinho e, até mata-os em favor do jovem apaixonado.
Simão é ferido nesse confronto e fica vários dias aos cuidados do ferreiro, mas, principalmente, sob os cuidados apaixonados de Mariana, sempre solícita, porém, sempre discreta. Até que chega a história ao seu clímax: o dia em que Teresa foi transferida de convento pelo pai e com o acompanhamento de Baltasar Coutinho. Simão resolve acabar com a intromissão do primo de Teresa e com um tiro mata o adversário e, numa postura que deixou a todos abismados, assume total responsabilidade do homicídio entregando-se e arcando com todas as consequências do ato.
Ele vai para a cadeia e Teresa para o convento. Mantêm então, correspondência com a ajuda de Mariana e de uma das freiras do convento, trocam juras de amor eterno mesmo sob condições tão adversas e não acreditam num destino feliz prometendo-se viver no sofrimento até à morte.
O desfecho dessa história é impressionante e digna de um autêntico texto romântico que é. Leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco os costumes daquela época, para quem quer conhecer um pouco do período romântico, mas também, para quem quer deliciar-se com uma grande história de amor.

Lois

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Retrato do Artista Quando Jovem

James Joyce
A proposta era ler um romance psicológico. Pois bem, James Joyce foi o escolhido. E olha, bota psicológico nisso!
Retrato do artista quando jovem é uma obra pra lá de difícil, quase indecifrável. Narra a vida de Stephen Dedalus, que dizem ser o autorretrato de Joyce em toda sua profundidade e sua introspecção.
A história passa pela infância de Dedalus que, a princípio, sofre com os colegas de escola que se incomodam com a inteligência dele e suas opções literárias, chegando ao ponto de jogarem-no dentro de uma fossa. Mas, tempos depois, ele ganha a admiração de todos por entregar um dos professores para o diretor do colégio por usar a palmatória de forma abusiva.
Daí em diante tudo parece a narrativa de um sonho. Stephen Dedalus aparece perambulando pelas ruas de um bairro boêmio a procura de satisfazer seus anseios sexuais, daqui a pouco é um jovem perturbado e profundamente determinado a dar fim à sua promiscuidade através de confissões e mais confissões. em busca de uma vida mais "limpa".
Até que num certo dia ouve o sermão de um padre que descreveu o inferno extraordinariamente horrível e um deus nada misericordioso. Então, entra em pânico, fica totalmente fragilizado, tem crises de culpa, passa a se culpar por todo e qualquer erro ou pensamento pecaminoso.
Sua dedicação e sua postura exemplar levam-no a receber um convite ao sacerdócio e, embora sentindo-se tentado por todo o status que a vida eclesiástica lhe traria, não abre mão de sua liberdade.
Para tanto, trava duelos intelectuais com vários colegas da universidade sobre os mais variados temas: patriotismo, amor, amizade e, principalmente religião. Nessas discussões percebemos claramente o alter ego do autor dialogando consigo mesmo e tentando resolver seus conflitos internos.
Se, então, isso é verdade, os demais personagens, ou pelo menos a maioria deles, é o autor dando vida a seus próprios pensamentos , seus conflitos, seus julgamentos e medos. Uma leitura realmente desafiadora, mas que, ao final, sentimo-nos recompensados.
E por entre tanta introspecção ele divaga sobre "um piolho que subiu-lhe pela nuca e, colocando o polegar e o indicador com um gesto ágil por sob a gola solta, ele o pegou. Rolou aquele corpo diminuto, suave porém mesmo assim duro como um grão de arroz, entre o polegar e o dedo por um instante antes de largá-lo e se indagou se o animal haveria de viver ou morrer",

Lois