terça-feira, 17 de outubro de 2023

Tenda dos Milagres

Jorge Amado



Um dos grandes milagres da literatura é fazer-nos viajar. Pode ser para outros países, outros planetas, outras épocas, ou simplesmente, para dentro de nós mesmos. Basta nos entregarmos de mente e coração e seremos capazes de visitar mundos inimagináveis,  viajarmos no tempo indo ao passado ou ao futuro em poucas páginas. É surpreendente!

Pois bem, em TENDA DOS MILAGRES somos capazes de acompanhar uma história que se passa em 1968, porém, que conta a trajetória de Pedro Archanjo nascido há exatos 100 anos, ou seja, 1868.

Sendo assim, somos levados também à Bahia do século XIX com todas as suas crenças e sua mistura de raças, tema principal desse romance.

Mesmo sendo uma história fictícia, conseguimos visualizar o preconceito racial da época, sentir a mística das religiões afros e, lógico, em se tratando de Jorge Amado, deliciarmo-nos com a sensualidade latente em cada página.

Fausto Pena, poetinha medíocre que não emplacava nenhuma obra é contratado por um tal James D. Levenson, ganhador do Prêmio Nobel, para fazer uma pesquisa sobre o nosso herói Archanjo, tarefa essa levada a cabo, enquanto o gringo divertia-se com Ana Mercedes, namorada do dito poetinha.

O tema preconceito permeia toda a trama fazendo com que Pedro Archanjo se desdobre para defender os direitos dos negros e descendentes, seja para colocar o bloco de carnaval na rua ou defender a união entre seu afilhado negro e a filha branca de um ricaço.

Na própria faculdade onde foi bedel por trinta anos, ele tem que enfrentar o preconceito de professores e alunos cheios de orgulho e arrogância. Ele, então, resolve escrever sobre esse preconceito, sobre sua religião e suas crenças e provar que todo mundo na Bahia tem um negro na sua origem e que todos ali fazem parte de uma mesma família e uma mesma crença.

Criado dentro do candomblé, conhece todos os mistérios dessa religião e está sempre participando de rituais e acontecimentos ligados a isso. Tenda dos Milagres é o nome dado ao local onde seu amigo Lídio Corró esculpia em madeira milagres encomendados por pessoas que haviam recebido tal graça. Mais tarde, a tenda vem a se tornar também uma gráfica onde Archanjo imprime seus livros.

Tendo uma trajetória que vai de homem simples, do povo a grande antropólogo às voltas com professores, filósofos e sociólogos, a certa altura, Pedro Archanjo Ojuobá é questionado quanto as suas crenças: "Como podia um homem das ciências acreditar em candomblé?...tudo muito primitivo, superstição, barbarismo, fetichismo, estágio primário da civilização. Como é possível?" E ele, do alto de sua sabedoria, construída nas ruas e nos livros, com os amigos nos botecos e com os professores universitários: "Sei de ciência certa que todo sobrenatural não existe, resulta do sentimento e não da razão, nasce quase sempre do medo. No entanto, os orixás, a luta de capoeira, o samba-de-roda, os afoxés, os atabaques, os berimbaus são bens do povo. Meu materialismo de hoje não me limita."

Abraços,

Lois


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