Algumas vezes na vida a gente se depara com situações que nos remetem ao passado: fatos que há muito estão guardados lá no fundo da memória e emergem repentinamente por conta de um acontecimento atual que provoca em nós lembranças às vezes boas e às vezes más.
Sem contar aquele sentimento de "déjà vu" que é aquela sensação de já ter estado em determinado lugar sem nunca ter estado, aquela certeza absoluta de já ter passado por alguma situação, mas ninguém mais se lembrar daquilo.
O argentino Alan Pauls relata acontecimentos mais ou menos assim nesta sua narrativa - uma novela de pouco menos de 100 páginas - que conta a história de um menino que, ora com quatro anos, ora já adolescente, vestido com sua roupa de super-homem e montado em seu triciclo tenta entender o mundo ao seu redor.
Passando por um cenário político argentino da década de setenta, dois personagens destacam-se na vida do protagonista, curiosamente, causando-lhe náuseas.
O primeiro ligado a sua mãe, um vizinho militar do prédio onde moravam e com quem, algumas vezes, sua mãe o deixava para fazer trabalhos vespertinos. O sujeito aceitava cuidar dele na ausência da mãe, porém, não era lá muito amistoso, limitando-se a sentar na sua poltrona e apenas observar o garoto de longe, às vezes lendo um livro ou, às vezes, fumando um cigarro e até dormindo.
A primeira vez que viu esse tal vizinho foi no elevador e aí se dá a cena na qual o protagonista teve náusea causada pelo perfume do militar, um cena, até certo ponto, digamos, interessante.
O outro personagem que causa náusea em nosso herói é um cantor de protesto que é ligado a seu pai e tudo nele, aos olhos do protagonista, soa falso ao ponto de lhe causar náuseas.
A história, então, desenrola-se através da memória do personagem principal, um novelo de lã que vai se desenrolando e enrolando a gente.
Confunde-nos às vezes, o vai e vem dessas memórias, exigindo um pouco mais de atenção, porém, no final, um desfecho inusitado coloca tudo às claras, ou quase tudo.
Lois

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