terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Cinzas do Norte


Milton Hatoum


Um tema recorrente nos livros é conflito familiar. Um pai que aporrinha o filho para que ele se interesse pelos negócios da família e, no futuro, substitua-o à frente da empresa é uma história mais que batida.
Porém, neste romance de Milton Hatoum ele faz isso com maestria. Fora dos grandes centros, a história é ambientada em Manaus e o autor, arquiteto de formação, usa e abusa de seu conhecimento para descrever prédios, praças, ruas e lugares com riqueza de detalhes.

Lavo é o narrador-personagem que, depois da morte da mãe, é criado pelos tios, irmãos dela, Ramira e Ranulfo, este metido a fanfarrão, vive na noite às voltas com bebidas e mulheres, aquela costureira que se mata de trabalhar para botar comida na mesa e pagar os estudos do sobrinho.

A família conflituosa em questão não é essa e sim a do amigo de Lavo, Mundo, um jovem apaixonado por desenho e artes em geral. O pai, Jano, é um grande empresário exportador que vive rodeado de amigos militares, lembrando que a história é contada, na maior parte, entre as décadas de 60 e 80, ou seja, em plena ditadura militar.

Jano, que assumiu as empresas do pai, quer que Mundo também assuma os negócios da família, mas, o menino só quer saber de pintar o sete e envolve-se com Arana, um artista regional e que, aos olhos de Jano e o tio de Lavo, não passa de um enganador.

Por conta desse total desinteresse do filho, Jano protagoniza brigas e mais brigas com Alícia, sua esposa que apoia o filho e o defende com unhas e dentes. Ela teve um caso com Ranulfo e uma ligação muito forte entre eles faz com que ele trate Mundo  como filho, embora, tendo para oferecer somente carinho e o apoio que o pai não dá em hipótese alguma.

Enquanto Mundo sonha em um dia ir embora de Manaus e conhecer as grandes cidades e desfrutar da arte e da cultura de todas elas, Lavo quer ser advogado e ficar por ali mesmo junto às suas raízes.

De certo modo, o autor conta uma história muito triste, com situações realmente pesadas. A gente se pergunta se pode existir relacionamentos assim. Mais uma obra que nos faz refletir sobre nossos próprios relacionamentos, principalmente aqueles onde não existem respeito e aceitação pelas decisões alheias.

Livro muito tocante e com um final surpreendente, possível, mas surpreendente.

Bom, então pra quem gosta de uma história triste e com situações muito comoventes, taí uma ótima dica: Cinzas do Norte de Milton Hatoum.

Abraços,
Lois

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